Categoria: Efeitos especiais e visuais

  • O braço robô que mudou o cinema

    O braço robô que mudou o cinema

    Nos  primórdios do cinema, quando eles queriam fazer naves espaciais, a solução mais comum era montar o cenário, pendurar miniaturas em fios de naylon e produzir todo o movimento de uma vez na frente das câmeras, como se fosse um show de marionetes

    Flash Gordon (1938) usava o método de “teatro de marionetes”

    Alguns anos depois, foi desenvolvida a técnica de chromakey, que envolvia filmar a miniatura na frente de um fundo azul que é posteriormente apagado, permitindo a sobreposição da miniatura em um cenário previamente filmado. 

    A série Star Trek (1966) usava o método de filmar a miniatura na frente do fundo azul.

    Apesar de largamente adotados, ambos os processos eram altamente limitados. Não permitiam movimentos complexos das miniaturas ou da câmera. Quando George Lucas foi fazer Star Wars, ele não queria nada disso. O briefing era que as batalhas espaciais fossem super dinâmicas, com movimentos complexos tanto de câmera quanto das miniaturas. Algo muito parecido com o que se via em documentários da segunda guerra. 

    Ficou claro que era preciso inventar uma nova abordagem, porque as técnicas tradicionais não dariam conta do recado. 

    O grande trunfo veio de um sistema chamado Dykstrafex, inventando pelo John Dykstra, especialmente pra filmar as batalhas do Star Wars. Este sistema era formado por um braço robótico, que podia fazer diversos movimentos programados por computador.

    • Dykstraflex

    Tais movimentos podiam ser repetidos ou ajustados com precisão milimétrica.  Isso resolveu uma série de problemas quando o assunto é fazer batalhas espaciais com  miniaturas, olha só:

    MOVIMENTOS DINÂMICOS
    Em uma cena com uma miniatura sobre o fundo azul, tanto faz você mover a miniatura ou mover a câmera, porque depois do fundo removido, resta apenas a miniatura se movendo pela tela. Porém, por uma série de questões, mover a câmera é mais fácil.  Assim, colocar a câmera no braço robótico, permitia fazer a maioria dos movimentos dinâmicos que as miniaturas precisavam executar. 

    Filmagens dinâmicas para o Império Contra Ataca.

    VÁRIAS MINIATURAS EM CENA
    Em uma cena complexa, com várias naves voando ao mesmo tempo, a única solução pra ter controle total sobre a cena é filmar uma nave de cada vez e depois juntar tudo numa mesma cena. Como o braço robótico pode ter seu movimento programado e ajustado, esse trabalho fica muito mais fácil. Inclusive, uma mesma miniatura pode ser filmada várias vezes, com pequenas variações no movimento entre uma tomada e outra. Quando junta tudo, fica parecendo que são várias naves na tela ao mesmo tempo. 

    ILUMINAÇÃO IDEAL
    Para conseguir um maior realismo, é comum filmar a miniatura em várias “passadas”. Explicando: Em miniaturas com recursos extras, como janelas iluminadas, turbinas, etc, o ideal é filmar esses elementos separadamente, fazendo ajustes necessários de luz e câmera em cada passada. Então a cena precisa ser filmada várias vezes, repetindo o mesmo movimento de câmera com alto grau de precisão pra que cada passada fique sincronizada com as demais. Depois, todos esses elementos são sobrepostos, recebendo ajustes finos, para formar a cena final. Isso acaba gerando um resultado muito melhor do que simplesmente ligar as luzinhas da miniatura e filmar tudo de uma vez.

    Miniatura dos anos 90 do Star Trek sendo filmada com várias passagens.

    FOCO PERFEITO
    Devido a limitações da tecnologia da época, o braço robótico se movia muito lentamente. Mas isso era perfeito. Porque um dos grandes problemas em filmar miniaturas, é que elas precisam estar em foco o tempo todo. E pra conseguir um foco perfeito, um dos recursos é fechar bem a lente da câmera. Porém, fazendo isso a imagem fica escura. Para compensar eles trabalhavam com a câmera tirando poucas fotos por segundo, permitindo deixar a lente da câmera aberta por mais tempo, assim entrava mais luz e a cena não ficava escura. Então a cena era filmada na velocidade de 1 frame por segundo. Mas quando a gente assiste, a 24 frames por segundo, era como se o movimento ficasse 24 vezes mais rápido, o que dava a sensação de velocidade, mantendo o foco perfeito. 

    Mesmo as cenas rápidas eram filmadas lentamente, com a câmera trabalhando com poucos frames por segundo, o que permitia ter um foco bem amplo.

    Vale lembrar que John dykstra ganhou o Oscar pelo seu trabalho em Star Wars.

    Hoje em dia, muitos efeitos especiais são feitos com computação gráfica no lugar de miniaturas, o que diminuiu, mas não aposentou o uso de sistemas de controle de câmera, como Dykstraflex. A tecnologia evoluiu muito, com robôs que conseguem fazer movimentos ultra rápidos, muito utilizados em publicidade ou cenas complexas de ação. 

    Nas minhas produções, como não tenho braço robótico (gostaria muito de ter, masss$$$$…), acabo fazendo um meio termo entre um movimento manual / mecânico da câmera com alguns recursos avançados na pós. Mas essa história fica pra outro artigo. 

    Para ver um pouco mais sobre o Dykstraflex:

    https://www.lucasfilm.com/news/lucasfilm-originals-the-dykstraflex

  • Miniaturas

    Miniaturas

    Nos meus filmes eu sempre tento usar miniaturas no lugar de computação gráfica. Acho que as miniaturas tem uma certa magia, tanto na hora de fazer quanto na hora de assistir ao filme.

    Filmando miniatura para o meu filme Termal Nível 5

    Mas, para as miniaturas funcionarem bem no cinema precisam despertar no público um sentimento que é chamado de “sensação de escala”. Isso acontece quando você olha pra uma miniatura, mas ela é tão bem feita e tão bem filmada que você compra a ideia de que está diante de um objeto gigantesco e nem percebe que se trata de uma miniatura. 

    Este navio do filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau é uma miniatura que foi colocada perto da câmera, fazendo um truque chamado “perspectiva forçada”. Ótimo exemplo de sensação de escala.

    Mas pra que a sensação de escala aconteça, é preciso respeitar alguns pontos na miniatura:

    Ela precisa ser muito bem feita – é preciso ter uma atenção especial a detalhes, respeitando a proporção ao seu correspondente do mundo real. Uma porta, por exemplo, não é apenas um buraco na parede. É preciso ter marco, dobradiças, maçaneta, a textura da madeira, além de possíveis sinais de desgaste. 

    Miniatura utilizada em Blade Runner – isso sim é atenção aos detalhes!

    É preciso respeitar uma distância mínima –  cada miniatura tem um limite até onde você pode se aproximar sem perder a ilusão. Quanto mais próximo, mais detalhada ela precisa ser, mas sempre tem um ponto a partir do qual você já consegue ver a textura do material e pequenas imperfeições, que acabam com a sensação de escala. 

    Luke, é você? Miniatura usada em O Império Contra Ataca. Se chegar muito perto começa a ver coisas que não deveria.

    É preciso ter uma grande profundidade de campo – este é um dos pontos mais importantes e mais difíceis quando se trabalha com miniaturas. A profundidade de campo é a área da sua imagem que está em foco. Quando você aproxima a câmera muito de um objeto, a imagem tende a ficar com grandes áreas desfocadas e uma pequena parte em foco. Isso denuncia na hora que estamos diante de uma miniatura. É preciso ajustar o equipamento e a iluminação para que o objeto inteiro esteja em foco. 

    Nesta cena do Star Wars – Uma Nova Esperança, a miniatura do star destroyer tinha mais ou menos 1 metro de comprimento e ficou em foco por toda sua extensão! Magos da filmagem em ação!

    É preciso respeitar a velocidade de locomoção – quando um objeto muito grande se move distante de você (como um avião passando no céu), a sensação que dá é que ele está bem devagar. Por isso é muito comum filmar em câmera lenta miniaturas que se movem.

    Ótima cena do Superman (1978) com várias miniaturas filmadas em câmera lenta pra reforçar a sensação de escala.

    As miniaturas ainda apresentam alguns desafios de logística, porque elas podem quebrar, o material se desgasta se não for bem cuidada, muitas vezes são feitas com material sensível e as luzes fortes necessárias nas filmagens podem empenar e até derreter as miniaturas se não tomar cuidado. 

    Mas mesmo com todas estas questões, se você fizer o trabalho bem feito e souber enquadrar e filmar sua miniatura corretamente, você tem uma cena magnífica que vai sustentar a sensação de escala por décadas no seu filme. 

    A partir dos anos 90, com a popularização da computação gráfica, as miniaturas foram gradualmente sendo substituídas por versões digitais. Mas curiosamente, a miniatura em CG também tem que despertar a sensação de escala no público e com isso precisa seguir as mesmas regras. A diferença é que você não tem os mesmos problemas de logística: elas não se deterioram nem se quebram, desde que você faça um backup dos arquivos. A grande profundidade de campo também é facilmente conseguida na computação gráfica. 

    O problema da computação gráfica é que 100% da imagem precisa ser construída do zero pelo computador. Inclusive a luz e sombra são simulações. Com isso, é muito difícil atingir um nível de realismo necessário pra acontecer a sensação de escala. Assim, a computação gráfica acaba sendo mais exigente. Na computação gráfica não tem meio termo: ou é 100% perfeita ou todo mundo vai achar tosco. 

    Na computação gráfica, ou é 100% ou fica parecendo video-game.

    Com isso, existe um outro fenômeno muito comum que é o amadurecimento do olhar do público. Uma imagem em computação gráfica que parece ultra realista hoje em dia, alguns anos depois pode parecer altamente falsa. Eu por exemplo, olho pro Avatar (2009) hoje em dia e parece que eu estou diante de uma cena de video-game.  Em contra partida, o ataque à Estrela da Morte no Retorno de Jedi me convence até hoje, mais de 40 anos depois.

    Retorno de Jedi (1983) – Essa cena absurda foi toda feita com miniaturas! Imbatível até hoje!

    Um ótimo exemplo do uso inteligente da computação é o filme Jurassic Park: a grande maioria dos dinossauros são bonecos reais. Apenas 5 minutos de computação gráfica foi usada no filme todo. Eles sabiam exatamente onde usar e principalmente onde não usar porque tinham consciência das limitações da técnica. Por isso ele se sustenta muito bem até hoje, mais 30 anos depois da estreia.

    Além de todas estas questões, a computação gráfica ainda gerou um efeito colateral: a diminuição da personalidade dos filmes, ao tornar tudo possível de forma relativamente fácil, desde que você tenha grana. Mas isso é assunto pra um outro post. 

    Por enquanto, eu posso dizer que prefiro as miniaturas, porque elas existem no mundo real. A luz, a sombra, a textura, já tá tudo lá e isso é pelo menos a metade do negócio. E é uma maneira de conseguir realismo quando não se tem muita grana pra produzir o filme.

    Sem falar que trabalhar com miniaturas é sempre mais divertido do que ficar apertando zilhões de botões no computador.  

    • Modelo como sai da impressora 3D.