Categoria: Animação

  • A evolução (ou destruição) do traço na animação

    A evolução (ou destruição) do traço na animação

    No início, a animação comercial como a gente conhece era feita com seguinte processo:

    1 – Os cenários eram pintados em aquarela, guache ou acrílica em papel.

    2 – Os desenhos da animação eram feitos com lápis em folhas de papel.

    3-Os desenhos da animação eram reproduzidos em folhas de acetato, que é um plástico super transparente. 

    Essa abordagem permitia casar os desenhos do personagem com o cenário e ir trocando esses desenhos à medida que se fotografava um quadro por vez.

    Porém, o processo de reproduzir o desenho da folha de papel para a folha de acetato era extremamente trabalhoso

    Primeiro era feito o traço, muito liso, preciso e detalhado. Geralmente usando uma caneta tinteiro ou bico de pena.  Muitas vezes esse traço era colorido, acompanhando as cores do preenchimento. Por exemplo: se o personagem tinha uma camisa azul e uma calça amarela, era comum a camisa ter o traço azul e a calça ter o traço amarelo, porém em tons levemente diferentes.

    Repara a quantidade cores diferentes que formam esse traço (cinza na barba, dourado na taça, marrom na pele, etc)

    Tudo isso era muito complicado, trabalhoso e demorado. Imagina uma época que não tinha computador, tudo era manual, inclusive a mistura das tintas pra chegar em um tom específico. O traço multicolorido representava ter que mudar de tinta ou de caneta de tempos em tempos. 

    Então, era comum o traço de um único quadro demorar horas e horas pra ficar pronto. Mas ficava lindo! Pra mim, os traços mais sensacionais que a gente encontra nas produções Disney estão em Peter Pan e A Dama e o Vagabundo

    Depois do traço pronto, era preciso esperar secar e no verso da folha de acetato fazer a pintura dos preenchimentos. Que era também um segundo tempo de trabalheira sem fim. 

    O traço era feito na frente e o preenchimento no verso.

    O último filme a seguir esse processo dentro da Disney foi A Bela Adormecida (1957). O seu próximo filme 101 Dálmatas marcou uma mudança radical nesse processo. E na estética das animações como um todo. 

    Era um período em que filmes de animação não davam muita bilheteria. A Bela Adormecida teve uma bilheteria baixa,  tendo muita dificuldade para cobrir os custos de produção. E o próprio Walt Disney estava muito focado em outros empreendimentos, como a construção de parques como a Disneylândia, por isso não tinha tantos recursos pra fazer filmes como antes. 

    Então no final da produção de A Bela Adormecida, o seu antigo sócio Ub Iwerks, ofereceu para Walt Disney uma solução super tecnológica que representaria uma economia enorme de tempo e dinheiro: a máquina de Xerox

    Ub Iwerks era um gênio. Nos tempos em que trabalhava com Walt Disney, ele era a força criativa por trás dos filmes, enquanto Walt Disney era a pessoa que sabia negociar muito bem. No início, vários curtas do Mickey, eram animados inteiramente pelo Ub Iwerks.

    Ub Iwerks em pessoa

    Depois que saiu da Disney, trabalhou em vários lugares, um deles foi a Xerox, que tinha acabado de inventar a copiadora e estava tentando emplacar no mercado. Gênio como era, Ub Iwerks enxergou uma aplicação muito útil na indústria da animação: Ao invés de fazer o traço ultra elaborado e demorado, era só alimentar a máquina de xerox com folhas de acetato e fazer uma cópia do desenho original direto no acetato. Com apenas o aperto de um botão o desenho estaria transferido e pronto para ser pintado. O que antes demorava horas e horas, agora seria feito em segundos.

    Não era exatamente “apertar um botão”, porque a máquina era um trambolho. Olha ela aí.

    Mas isso tinha um custo: os desenhos dos animadores geralmente são sujos e cheios de rabiscos. A máquina Xerox não conseguiria limpar esse traço, deixando tão bonito quanto normalmente era feito. O traço ficaria do jeito que o animador fizesse: rabiscado e sempre preto. Apesar de não ter gostado muito do aspecto do traço, Walt Disney resolveu arriscar e investiu na máquina de Xerox no 101 Dálmatas. O resultado é o que vemos no filme: um traço preto e muito rabiscado

    Traço em 101 Dálmatas. Eu particularmente prefiro a estética antiga. 

    Mas essa abordagem realmente representou uma economia de custo e tempo. Como o filme não foi mal nas bilheterias, isso sinalizou que o público não estranhou tanto a novidade, que inclusive foi vendida como uma “modernização” na estética dos filmes, pra ficar mais com ”cara dos anos 60”. 

    Como 101 dálmatas passou no teste, dali pra frente a máquina de Xerox passou a ser o padrão na indústria da animação, sendo a solução oficial da Disney e largamente usada em outros estúdios pelo mundo afora . 

    Isso não significa que o processo tradicional morreu completamente, mas o seu uso foi ficando cada vez menos comum. 

    Akira foi um dos que resistiu às mudanças e não fez uso de xerox, até onde se sabe.

    O Xerox acabou sendo aposentado na Disney no final dos anos 80, quando eles substituíram por um processo mais elaborado, chamado CAPS, que era um método já computadorizado. Um dos primeiros filmes a usar o CAPS foi A Pequena Sereia

    Pouco tempo depois o CAPS também foi substituído por processos totalmente digitais, chegando no padrão que temos hoje, que envolve já fazer o desenho em um ambiente digital, como tablets. Ou no muito, fazer os desenhos em papel (como é comum no Japão), scanear os desenhos e seguir tudo digital a partir daí.  

    Eu cheguei a trabalhar com esse processo de pintar acetatos em um comercial da TV que talvez você conheça (se tiver idade suficiente pra isso): Popotinha do Credireal (1995). Mas lá a gente não tinha máquina de xerox e o processo era o tradicional. Mas se me lembro bem o traço não era colorido. Era um traço uniforme, mas feito a mão com canetas de nanquim. Esperava secar e pintava no verso. 

    Apesar da trabalheira, era divertido. 

    Veja mais sobre a máquina de Xerox no blog do Andreas Deja:
    https://andreasdeja.blogspot.com/2025/04/the-magic-of-xerox.html

  • A morte da animação quadro a quadro

    A morte da animação quadro a quadro

    Quando a gente vê filmes antigos (início dos anos 90 pra trás) e acontece algum efeito de energia – tiro de laser, relâmpagos e raios, por exemplo – provavelmente estamos diante de um trabalho artístico, artesanal e super elaborado, feito por uma pessoa muito experiente na área da animação. 

    Pegue por exemplo os filmes originais do Star Wars. Toda vez que um tiro cruza a tela, alguém animou aquele “risco”, quadro-a-quadro, provavelmente com lápis em folhas de papel, que foram filmadas com um filme de alto-contraste, ficando apenas o traço preto com o fundo branco. Isso depois era invertido, deixando um risco branco com o fundo preto, formando uma máscara que em seguida é aplicada em cima da cena previamente filmada. Alguns outros processos analógicos, como o uso de filtros e desfoques na lente eram utilizados pra colocar cor e brilho.

    Com tempo, essa abordagem artesanal foi infelizmente dando lugar à computação gráfica, que consegue fazer o trabalho mais rápido. Hoje em dia, o After Effects, por exemplo tem uma ferramenta pronta de relâmpagos, onde você apenas marca o início, o fim e configura como vai querer o raio. 

    Mas esse tipo de abordagem, apesar de mais rápido, deixa esse efeito muito seco, sem personalidade. Sei que parece estranho falar em personalidade pra um relâmpago, mas se você lembra da cena do De Volta Para o Futuro, onde o raio corre pelo cabo, você entende o que eu quero dizer.  

    No meu filme The Gapvoid, todos os efeitos de energia foram animados quadro-a-quadro. Cada tiro e “foguinho” na turbina da nave foi desenhado um quadro por vez, direto no computador em um programa de animação 2d em cima da cena já pronta. Não é um efeito realista, mas tem a “personalidade” que é tão legal. 

    Já no meu filme Termal Nìvel 5, eu usei as duas técnicas. Tem cenas que eu usei o raio automático do After Effects e outras cenas fiz a animação quadro a quadro.  E não tem jeito: a animação quadro-a-quadro é muito mais legal de ver na tela. 

    Infelizmente essa abordagem artesanal para este tipo de efeito é cada vez mais rara. Um exemplo recente que eu lembro é a série Arcane, na Netflix, onde tem vários efeitos de energia, fumaça, explosão e raios feitos com desenhos 2d quadro-a-quadro. Ali tem personalidade. 

    Você consegue ver uma boa explicação sobre o processo original neste vídeo do pessoal do “Slice of Life”: